Nosso quarto dava com uma janela para a rua. Nada podia ser mais acolhedor para mim do que aquela janela libertária.
Embora sobrasse um, dormíamos os três irmãos no mesmo quarto.
É que o que de fato sobrava era medo demais em nós, então era esse o motivo da nossa junção que se tornava tão fraterna naqueles momentos de aperto.
É que o que de fato sobrava era medo demais em nós, então era esse o motivo da nossa junção que se tornava tão fraterna naqueles momentos de aperto.
Aperto mesmo, pois a mais velha dormia encostada na janela e o caçula no meio.
Alias, está no meio até hoje. E para mim sobrava a ponta, perto da porta. Perto
da morte quando o medo batia.
Nossa tentativa sempre inútil de driblar o medo, tornava-se diversão na brigaiada de empurra que atravessava a noite. Aliás era essa a graça. A briga fraternal.
Mas tinha noite que o pai perdia a paciência e entrava no quarto, com seus cabelos ralos desarrumados e choramingando feito nós, talvez até para não nos bater. Aí nós nos uníamos em gargalhadas uníssonas. Ás vezes pai não sabia o que fazer conosco. Desconfio que não sabe ainda.
Mas tinha noite que o pai perdia a paciência e entrava no quarto, com seus cabelos ralos desarrumados e choramingando feito nós, talvez até para não nos bater. Aí nós nos uníamos em gargalhadas uníssonas. Ás vezes pai não sabia o que fazer conosco. Desconfio que não sabe ainda.
Mas a mesma janela libertária também irrompia a noite de vez em quando
num pedido de socorro dos primos. O tio, vizinho do outro tio dono de uma bela jabuticabeira, cismava vez ou outra de botar fogo na casa. O mesmo fogo que lhe consumia a alma
quando bebia. Então, enquanto espalhava gasolina pelo chão, um dos meninos escapava
e ia pedir ajuda do nosso pai através daquela janela, agora solidária.
Quando pai saía para socorrer, eu percebia o quão acolhedora era minha casa,
mesmo conosco amontoados em medos sem sentido. Então a paz guardava meu
coração.
O tio nunca conseguiu incendiar coisa alguma á não ser o sossego dos seus. Tirando a
bebida, que era diária, o tio era extremamente ordeiro. Era o tio que
além de se parecer com Hitler, colecionava discos de histórias infantis e
juntava seus filhos e nós para sessões noturnas, em roda do toca discos, levando
para longe os terrores que amputava á sua própria família pouco antes de nos
convencer com seus contos de fadas. Parecia ser esse o nosso tio de verdade.
Eu me lembro apenas de me perder quando olhava aquela
palheta preta do toca discos riscar suas faixas e como num toque de mágica eu
não escutava mais as palavras. Eu via as palavras.
Tio também, muito metódico, era um colecionador de mão cheia. No seu escritório, irritantemente arrumado, ele trazia um imenso quadro envidraçado, sempre sem poeira, exibindo seu tesouro aparente de chaveiros de todas as espécies.
Eu costumava; ficar feito um soldadinho de chumbo em pé frente aquela coleção, pois a gente não podia nem respirar no escritório do tio, admirando em especial a dupla do Açúcar União com o Café Caboclo.
Eu nunca tinha visto a Açúcar União com seu vestidinho lindo de noiva ao lado do Café Caboclo num terno meio caipira e chic, de casamento. Eu tinha a nítida sensação que eles podiam me ver e que á qualquer momento, sairiam de lá, direto para as minhas mãos.
Para falar a verdade, o encantamento era tão eficiente que eu nem percebia minhas pernas adormecerem e a respiração mal sair, que era para não deixar o tio de mal humor.
Minhas longas esperas, na esperança da generosidade de tio, de nada adiantou.
Pois tio faleceu muito tempo depois, proporcionando um enorme descanso á sua família e quanto á mim, jamais herdei seus chaveirinhos.
Pois tio faleceu muito tempo depois, proporcionando um enorme descanso á sua família e quanto á mim, jamais herdei seus chaveirinhos.

Que poema mais lindo! Amei, Char!
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