Minha rua de infância tinha algo de errante. Divertida.
Esperada e inesperada.
Eram pessoas que eu
sabia que passariam por ali vez ou outra, então isso trazia o acalento da
novidade na minha alma já inquieta e ávida, desde pequena.
Um desses eventos era quando o Sr. Remo, um padeiro
português, descia nossa rua com sua perua Kombi branca, recheada, por dentro,
de todos os tipos de pães. Era a nossa padaria ambulante.
Se eu fosse pintora, poderia retratar exatamente a cor amarela
da tarde quente, á hora do sol das três mais ou menos, quando eu avistava a
perua, que já era meio surrada e seu branco nem tão branco, fazer a curva da
esquina da casa da tia Ermelinda.
Quando a tarde ficava amarela daquele jeito, eu podia
apostar: o Sr. Remo estava prestes á chegar. Nenhum amarelo da tarde era melhor
do que aquele.
Então o português, que era meio baixo, saltava da
sua Kombi numa destreza comparada á de um bailarino e vinha abrir a porta do
céu para nós, crianças e mulheres.
Enquanto a mãe e as tias apanhavam o leite eu ia direto,
sem rodeios, na rosca de massa fofinha, transbordando côco e aquele brilho
inexplicável por cima.
Meu Deus, como era sagrada a hora do seu Remo passar.
Então eu entrava dentro daquela Kombi, paraíso errante e
me perdia naquelas imensas bandejas de madeiras, com seu cheiro doce sem fim.
Esse foi o melhor cheiro doce que tenho registrado desde
criança, assim como o prazer da saciedade. Essa mesma que
experimentamos algumas vezes e que passamos a vida á procurá-la, como
verdadeiros errantes.
É quando caímos naquele círculo infinito e ilusório de
confundir saciedade com felicidade e aí escorregamos na esparrela do vício e
ironicamente da insatisfação.
Mas isso eu aprendi há muito pouco tempo.
Aquela Kombi branca era de fato um motivo de alegria e
ópio, tudo ao mesmo tempo, mais um aroma de doçura do meio da tarde para
completar, que realizava meus desejos ingênuos e ensinara-me a saber a hora do
dia através dos seus muitos amarelos.
Então eu descia do meu pequeno paraíso inabalável, já
consolada com seu retorno da próxima semana.
E aquela Kombi
rasgava, devagar e enroscando, o amarelo rua abaixo, até sumir barulhentamente dos
meus olhos saciados.

Lembrança de criança tem um sabor muito especial. Consigo ver em suas palavras a imagem que descrevia. Parabéns!
ResponderExcluirHumm, torrada com geléia de goiaba na colônia de férias do SESC em Bertioga, passeios deliciosos com meus avós. Adorei o texto e voltei aos sabores da minha infância. Bolinho de chuva com chá matte da minha outra avó.
ResponderExcluirBeijos açucarados, mas nem tanto...