A mãe teve um jeito bem peculiar de ensinar- me á ser mulher.
Deixou - me desfrutar da rua, é verdade. Vestiu- me de shorts e cabelos curtos.
Grassei no meio dos meninos, reinei entre as brincadeiras de esconde- esconde, rei capitão soldado ladrão tampas de dedões arrancadas, em meio ao meu futebol desajeitado.
Mas a mãe olhou pra mim no momento exato que meu corpo foi tomando forma de mulher.
Firmemente dizia- me que já era hora de tirar o shorts e colocar os vestidos.
Relutei, sem dúvida.
Ainda pequena, guardava um vestido para ocasiões especiais.
Era branco em cima, com casinhas de abelha e saia rodadinha de xadrez em azul e branco. De boneca.
Eu jamais havia pisado num cinema, quando um namorado de minha irmã fez- me a proposta, e o que era melhor ainda:iríamos só eu e ele, já que a primogênita implicava comigo.
O rapaz era de fato bem desengonçado, magrelo e narigudo, mas conquistou- me com o convite espontâneo.
Coloquei meu vestido, como se fosse uma noiva, horas á fio antes do combinado e me pus á esperá- lo no portão.
O sol ardia no seu amarelo mais pungente.
Avistar o desajeitado no final da rua era como um náufrago avistar a terra.
Meu cinema estava á salvo.
Não posso lembrar- me do filme uma vez que a imensidão escura da sala de projeções foi o que mais encantou- me.
Quão triste foi voltar para casa, ao inquérito curioso de minha irmã.
Mas aquele era meu vestido favorito, de menina ainda, que além do cinema, servia-me para esperar o Pedrinho passar em frente de casa, toda tarde, quando chegava do trabalho.
Então tive a liberdade da rua e a escolha da sedução, desde pequena.
Sem dizer palavras, mãe presenteou-me com vestidos e embora fosse aparentemente desprovida de vaidade, ensinou- me á arte.
Seu jeito inocente era um equívoco aos olhos desatentos.






