domingo, 30 de agosto de 2015

O Verbo




Sofro 
do benefício 
do verbo 

Do verbo 
que transita 
em mim

Ás vezes,
intransitivo

Sofro do verbo
 que escapa 
da carne, 
do corpo, 
da realidade

Sofro do verbo 
que cicatriza 
a alma


domingo, 23 de agosto de 2015




Sobre o Amor


Existe em mim
uma vontade
que não sei explicar,

de amar

Mas não é
de amar 
gente,
coisa 
ou bicho

É vontade
de amar, só
sem ter 
que explicar.




Sobre o Desejo


 Anseio que meu vazio,
mesmo temporão,
floresça antes do inverno

Que esse avesso
não se endireite,
mas se acomode

Desejo pensamentos simples,
passeios modestos,
amigos gostosos

Desejo uma poesia que deslize
e não que enrosque

Acho que padeço do mal
de desejar demais
  



domingo, 16 de agosto de 2015






O verão
espreita
minha alma

Já aponta
nas frestas
da minha janela

Floresço,
mesmo de noite,
quando
chego em casa

Floresço
quando olho
meu companheiro,
bonito,
de rosto
moreno iluminado

Floresço
mesmo ao fim
de dias iguais


Pra que esperar
o amanhecer
se a noite
Já se põe iluminada?

















domingo, 9 de agosto de 2015

Corações com Cebola e Alho nas Panelas




                                                             



A casa pulsava nos corações das panelas de minha mãe, no odor que exalava do exagero da cebola e do alho fritando em óleo.Assim era mãe também, exagerada .

Exagerou na comida, nos cuidados, no amor, no timbre alto da sua voz, no vigor de seu assobio. Para mim, no entanto, mãe foi exata. 

Tive o privilégio de conhecer o amor que basta. Sem faltas, em paz.

Jamais pude imaginar que seria eu quem acolheria em meus braços a finitude concreta desse amor, quando as panelas e o coração da mãe parassem.

Enquanto suas panelas repousavam guardadas e polidas na cozinha, eu tomei a mãe em abraço colado, na sua cabeceira de UTI e a conduzi docemente, sussurrando minha despedida em seus ouvidos até que ela atravessasse a porta que faz a vida encontrar com a morte.

Também não suporia que a exatidão do amor da mãe fosse tão perfeita que mesmo diante da finitude, brotariam em mim depois, em forma de palavras. 

Então quando as panelas estalavam eu percebia que o rumo da casa ia bem. Porque ás vezes, uma tristeza, também sem medida, tomava conta da mãe e do meu coração por extensão. 

A pia que mãe cozinhava era a mesma que acolhia tantas e tantas vezes seu choro. Para mim, sempre sem sentido. Então, ver a mãe chorando de costas e os soluços balançarem suas ancas, era como me colocar de frente para o desamparo.

Mas ver mãe cozinhando e gatos badernando no trançado do seu andar, ah que casa boa eu tinha naqueles momentos.

Quando não tinha ninguém na rua para brincar eu juntava cadernos e lápis de colorir e ficava alí, acompanhando a sinfonia da mãe com a cozinha. Raridade de sossego em minha alma.

Os dias de chuva, no entanto, com ou sem mãe cozinhando, encharcavam minha existência de tédio até meus antepassados.

E eu me punha á olhar o céu, como quem pudesse com aquela teimosia toda aplacar a água que caia.Ainda  faço isso hoje, como criança que jamais aprendeu a lição.

Os primeiros piados de passarinhos ás vezes, tomavam- me de alegria sem fim pois sabia que eu poderia ganhar a rua novamente e aquele cheiro de chão molhado, com promessa de tornar-se seco, comparava - se a um renascimento.

As panelas da mãe, na verdade, não morreram. Pois o cheiro de cebola fritando em qualquer lugar, trazido pelo vento não sei de onde, traz a mãe de volta para mim, de costas, avental amarrado sobre as anquinhas generosas e pés muito, mas muito limpinhos em seus chinelos de borracha.









domingo, 2 de agosto de 2015

Janela, Café Caboclo e Açucar União

         
         
                                 




Nosso quarto dava com uma janela para a rua. Nada podia ser mais acolhedor para mim do que aquela janela libertária.



Embora sobrasse um, dormíamos os  três irmãos no mesmo quarto. 
É que o que de fato sobrava era medo demais em nós, então era esse o motivo da nossa junção que se tornava tão fraterna naqueles momentos de aperto.



Aperto mesmo, pois a mais velha dormia encostada na janela e o caçula no meio. Alias, está no meio até hoje. E para mim sobrava a ponta, perto da porta. Perto da morte quando o medo batia.



Nossa tentativa sempre inútil de driblar o medo, tornava-se diversão na brigaiada de empurra que atravessava a noite. Aliás era essa a graça. A briga fraternal.

Mas tinha noite que o pai perdia a paciência e entrava no quarto, com seus cabelos ralos desarrumados e choramingando feito nós, talvez até para não nos bater. Aí nós nos uníamos em gargalhadas uníssonas. Ás vezes pai não sabia o que fazer conosco. Desconfio que não sabe ainda.




Mas a mesma janela libertária também  irrompia a noite de vez em quando num pedido de socorro dos primos. O tio, vizinho do outro tio dono de uma bela jabuticabeira, cismava vez ou outra de botar fogo na casa. O mesmo fogo que lhe consumia a alma quando bebia. Então, enquanto espalhava gasolina pelo chão, um dos meninos escapava e ia pedir ajuda do nosso pai através daquela janela, agora solidária.



Quando pai saía para socorrer, eu percebia o quão acolhedora era minha casa, mesmo conosco amontoados em medos sem sentido. Então a paz guardava meu coração.



O tio nunca conseguiu incendiar coisa alguma á não ser o sossego dos seus. Tirando a bebida, que era diária, o tio era extremamente ordeiro. Era o tio que além  de se parecer com Hitler, colecionava discos de histórias infantis e juntava seus filhos e nós para sessões noturnas, em roda do toca discos, levando para longe os terrores que amputava á sua própria família pouco antes de nos convencer com seus contos de fadas. Parecia ser esse o nosso tio de verdade.

Eu me lembro apenas de me perder quando olhava aquela palheta preta do toca discos riscar suas faixas e como num toque de mágica eu não escutava mais as palavras. Eu via as palavras.


Tio também, muito metódico, era um colecionador de mão cheia. No seu escritório, irritantemente arrumado, ele trazia um imenso quadro envidraçado, sempre sem poeira, exibindo seu tesouro aparente de chaveiros de todas as espécies.

Eu costumava; ficar feito um soldadinho de chumbo em pé frente aquela coleção, pois a gente não podia nem respirar no escritório do tio, admirando em especial a dupla do Açúcar União com o Café Caboclo.


Eu nunca tinha visto a Açúcar União com seu vestidinho lindo de noiva ao lado do Café Caboclo num terno meio caipira e chic, de casamento. Eu tinha a nítida sensação que eles podiam me ver e que á qualquer momento, sairiam de lá, direto para as minhas mãos.

Para falar a verdade, o encantamento era tão eficiente que eu nem percebia minhas pernas adormecerem e a respiração mal sair, que era para não deixar o tio de mal humor.



Minhas longas esperas, na esperança da generosidade de tio, de nada adiantou.

Pois tio faleceu muito tempo depois, proporcionando um enorme descanso á sua família e quanto á mim, jamais herdei seus chaveirinhos.