A casa pulsava nos corações das panelas de minha mãe, no
odor que exalava do exagero da cebola e do alho fritando em óleo.Assim era mãe também, exagerada .
Exagerou na comida, nos cuidados, no amor, no timbre alto da sua voz, no vigor
de seu assobio. Para mim, no entanto, mãe foi exata.
Tive o privilégio de conhecer o amor que basta. Sem faltas, em paz.
Jamais pude imaginar que seria eu quem acolheria em meus braços a finitude
concreta desse amor, quando as panelas e o coração da mãe parassem.
Enquanto suas panelas repousavam guardadas e polidas na cozinha, eu tomei a mãe em abraço colado, na sua cabeceira de UTI e a conduzi docemente, sussurrando minha despedida em seus ouvidos até que ela atravessasse a porta que faz a vida encontrar com a morte.
Também não
suporia que a exatidão do amor da mãe fosse tão perfeita que mesmo diante da
finitude, brotariam em mim depois, em forma de palavras.
Então quando as panelas estalavam eu percebia que o rumo da casa ia bem. Porque
ás vezes, uma tristeza, também sem medida, tomava conta da mãe e do meu coração
por extensão.
A pia que mãe cozinhava era a mesma que acolhia tantas e tantas vezes seu
choro. Para mim, sempre sem sentido. Então, ver a mãe chorando de costas e os
soluços balançarem suas ancas, era como me colocar de frente para o desamparo.
Mas ver mãe cozinhando e gatos badernando no trançado do seu andar, ah que casa
boa eu tinha naqueles momentos.
Quando não tinha ninguém na rua para brincar eu juntava cadernos e lápis de
colorir e ficava alí, acompanhando a sinfonia da mãe com a cozinha. Raridade de
sossego em minha alma.
Os dias de chuva, no entanto, com ou sem mãe cozinhando, encharcavam minha
existência de tédio até meus antepassados.
E eu me punha á olhar o céu, como quem pudesse com aquela teimosia toda aplacar
a água que caia.Ainda faço isso hoje, como criança que jamais aprendeu a
lição.
Os primeiros piados de passarinhos ás vezes, tomavam- me de alegria sem fim
pois sabia que eu poderia ganhar a rua novamente e aquele cheiro de chão
molhado, com promessa de tornar-se seco, comparava - se a um renascimento.
As panelas da mãe, na verdade, não morreram. Pois o cheiro de cebola fritando
em qualquer lugar, trazido pelo vento não sei de onde, traz a mãe de volta para
mim, de costas, avental amarrado sobre as anquinhas generosas e pés muito, mas
muito limpinhos em seus chinelos de borracha.