domingo, 9 de agosto de 2015

Corações com Cebola e Alho nas Panelas




                                                             



A casa pulsava nos corações das panelas de minha mãe, no odor que exalava do exagero da cebola e do alho fritando em óleo.Assim era mãe também, exagerada .

Exagerou na comida, nos cuidados, no amor, no timbre alto da sua voz, no vigor de seu assobio. Para mim, no entanto, mãe foi exata. 

Tive o privilégio de conhecer o amor que basta. Sem faltas, em paz.

Jamais pude imaginar que seria eu quem acolheria em meus braços a finitude concreta desse amor, quando as panelas e o coração da mãe parassem.

Enquanto suas panelas repousavam guardadas e polidas na cozinha, eu tomei a mãe em abraço colado, na sua cabeceira de UTI e a conduzi docemente, sussurrando minha despedida em seus ouvidos até que ela atravessasse a porta que faz a vida encontrar com a morte.

Também não suporia que a exatidão do amor da mãe fosse tão perfeita que mesmo diante da finitude, brotariam em mim depois, em forma de palavras. 

Então quando as panelas estalavam eu percebia que o rumo da casa ia bem. Porque ás vezes, uma tristeza, também sem medida, tomava conta da mãe e do meu coração por extensão. 

A pia que mãe cozinhava era a mesma que acolhia tantas e tantas vezes seu choro. Para mim, sempre sem sentido. Então, ver a mãe chorando de costas e os soluços balançarem suas ancas, era como me colocar de frente para o desamparo.

Mas ver mãe cozinhando e gatos badernando no trançado do seu andar, ah que casa boa eu tinha naqueles momentos.

Quando não tinha ninguém na rua para brincar eu juntava cadernos e lápis de colorir e ficava alí, acompanhando a sinfonia da mãe com a cozinha. Raridade de sossego em minha alma.

Os dias de chuva, no entanto, com ou sem mãe cozinhando, encharcavam minha existência de tédio até meus antepassados.

E eu me punha á olhar o céu, como quem pudesse com aquela teimosia toda aplacar a água que caia.Ainda  faço isso hoje, como criança que jamais aprendeu a lição.

Os primeiros piados de passarinhos ás vezes, tomavam- me de alegria sem fim pois sabia que eu poderia ganhar a rua novamente e aquele cheiro de chão molhado, com promessa de tornar-se seco, comparava - se a um renascimento.

As panelas da mãe, na verdade, não morreram. Pois o cheiro de cebola fritando em qualquer lugar, trazido pelo vento não sei de onde, traz a mãe de volta para mim, de costas, avental amarrado sobre as anquinhas generosas e pés muito, mas muito limpinhos em seus chinelos de borracha.









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