sexta-feira, 29 de maio de 2015

Gênesis da Gênesis

                             





“ Um fotógrafo é literalmente um homem que escreve com a luz. Um homem que escreve e reescreve o mundo com luzes e sombras.”
Essa é a frase de abertura do filme O Sal da Terra, documentário sobre a vida do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

Há mais ou menos 25 anos atrás eu comprei um livro de fotografias pela foto que havia na capa. Eu não poderia imaginar que essa click, como tantas outros, tornar-se-iam obras. Quem vê uma foto do Sebastião Salgado não esquece jamais a sua marca.
Prova disso é que eu passeava em Lisboa e sem menos esperar, avistei um imenso cartaz cujo elefante parecia atravessar o plástico. Sinceramente minha intuição apitou: Sebastião Salgado está por perto. E de fato estava.

A exposição Gênesis encontrava-se bem alí, na Galeria do Torreão da Cordoaria Nacional.
 Ao sair estonteada, pensei: eu estou diante de um homem em comunhão com o planeta. 
Eu mesma acabo de provar um pouquinho dessa comunhão.

E de fato havia provado. Eu visitara um prédio antigo cuja algumas paredes foram pintadas de um vermelho fechado para abrigar as fotos em preto e branco.

Como de costume eu precisava olhar cada uma delas bem de perto e depois de longe para conseguir apreender e captar a sensação única de estar diante do olhos vívidos e curiosos daquele gorila, do olhar melancólico da foca ou ainda do homem que se misturava ás samambaias me fazendo franzir o olhar várias vezes para poder distinguir o que era homem, o que era planta, o que eram os seixos e o que eram os músculos.

O mesmo se passava com o amontoado de pinguins perdendo-se nos limites das geleiras ou os homens empoeirados sobre a terra, a pata do lagarto de Galápagos perfeitamente desenhada em losango como se estivesse tatuando o chão.

Hora eu já não sabia mais se estava diante de uma dança do preto e branco ou do prateado. Não sabia onde começavam os bichos e as paisagens, céus e terras misturados, nuvens e montanhas, dunas de areia e mar. Completude. Comunhão.

Só depois, ao assistir o filme, consegui entender que era Sebastião Salgado brincando com suas luzes e sombras. Mais que isso, oferendo aos visitantes os lugares mais recônditos desse planeta. Lugares que além do inóspito, habita a vida. Que além da vida, habita a Gênesis.

Então eu comecei á compreender o que senti há dias atrás, espreitando cada foto sua. “A força de um retrato é o que, naquela fração de segundos, a gente entende um pouco da vida daquela pessoa. É a pessoa que dá a foto. Quando você tira um retrato, você não faz a foto sozinho.” Essa foi exatamente a intensidade dessa exposição.

Sebastião Salgado testemunhou e denunciou através de suas lentes, inúmeros genocídios e massacres ao longo de sua vida como fotógrafo. Explicitamente ele diz: Somos um animal muito feroz. Nós humanos somos um animal terrível.

Gênesis é como se fosse sua homenagem ao planeta, que segundo ele, mais da metade continua como no início dos tempos. Intocado. Por isso o nome.
Projeto que levou quase uma década, Sebastião Salgado percorre novamente o mundo, agora numa visita mais otimista do globo, trazendo até nós a natureza, os animais, os lugares e as pessoas como se estivéssemos diante do início.

A foto da cauda reluzente da baleia que dança acima da água, diga-se de passagem, estremecia levemente quando o fotógrafo acariciava sua pele nos momentos em que ela chegava perto do barco. E o macaco, ah! curioso ancestral, brincava de pôr e tirar o dedo da boca diante da sua lente, reconhecendo sua imagem.

Após assistir o filme, tive a sensação que Sebastião Salgado estaria fazendo seu próprio retorno. Esse é o cálice generosamente trazido até nós por esse homem que decidiu olhar além do óbvio: a Gênesis da Gêneses.

Profitez Bien sua exposição.

Dica: O filme O Sal da Terra, direção de Win Wenders e Juliano Ribeiro Salgado é imperdível. Não deixem de assistir.

















quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sobre o Blog





O Blog Profitez Bien! nasce do desejo de falar do belo, do criativo, da arte, do exclusivo, do estilo de vida num sentido mais amplo, convocando novos olhares.
Embora falemos de assuntos que sejam amplos, convido você, leitor, á um olhar mais particular e crítico. Penso que a arte em geral tem o dom de tocar cada um á sua maneira.
Profitez vem do francês e nada mais é do que: aproveitar. O Bien, confesso, uma doce redundância sonora.
Acima de tudo, desejo que á cada visita nesse blog, você internauta, possa de fato, Profitez Bien!

terça-feira, 26 de maio de 2015

Algumas considerações

                      




                                    

                                  Algumas Considerações,



De pequena, alguns chamavam- me poeta, poetisa.

Mas sinceramente não tenho registro ou lembrança da minha primeira  poesia ou algo assim.

No entanto, lembro- me perfeitamente da minha leitora mais fiel.

Lembro- me que chamava minha mãe para ouvir meus poemas.

Estivesse fazendo seja lá o que fosse, ela me acompanhava até a 
cozinha, seu lugar sempre preferido na casa, puxava a cadeira, 
ajeitava a anágua e esperava, esperava como quem espera um presente.

Seus olhos, eternamente azuis e atenciosos, descansavam sobre 
as minhas palavras.

Seu olhar escorregava para muito longe e então, naquele momento eu  compreendia que a poesia não era mais do autor, mas sim de quem a escutava.

Passei anos sem escrever e sem plateia. Quando o furor da meninice e da juventude amadureceu, a poesia acanhou-se.

Os anos passaram-se sem que eu compreendesse de fato o motivo dessa quietude.

Pensava que talvez ela não tivesse suportado a sem gracice da vida 
adulta.

Nunca mais incomodei- me com isso até o dia que minha mãe, 
serenamente, chamou- me para um pedido.

Dessa vez, acomodou- se no sofá da sala, fitou- me nos olhos e 
encomendou- me seu funeral.

Se a vida adulta brindou- me com sua sem gracice, presenteou-me também com o dom do acolhimento.

Lisonjeada, escutei seu pedido. Surpresa, já sabia que teria prazer em atendê-lo.

Mas os dias passaram- se e como o pedido trazia duas exigências com cores, senti- me confundida por alguns instantes.

Pedi que minha mãe o refizesse e como as mães também tem  o 
dom de repetir as coisas, ela assim o fez, sem se incomodar.

Mas o lapso de memória me rondava.

Para garantia então, uma noite, já deitada e tomada por
inquietação  tão caseira, decidi antecipar- me á peça que estava eu mesma por me  pregar .

Ao tentar anotar na agenda as cores que zombavam de mim na tentativa de inverterem-se, fluiu o poema " Não Pode Flor Amarela".

 Autorizei-me poeta á partir desse poema.

Agora, era eu quem acolhia a poesia de minha mãe, que desenhava-se no seu último pedido.

As flores interditadas de minha mãe, floresceram então na minh’alma.

Como de costume, convoquei novamente minha leitora e a presenteei com o poema, sem sabermos, um ano e dois meses antes da sua morte.

Esse é o registro que tenho como sendo o último poema lido á minha mãe e o primeiro da poeta.

Não sou, contudo,  poeta que desfila de sandálias ou caminha despojada pelas ruas.

Sou poeta que gosta da vida, do belo, do exuberante, do difícil também.

Sou na verdade a serviçal dessas metáforas que aparecem e me põe  para andar. Que me cutucam, feito a ave que quando  fura o ovo é porque quer  nascer de verdade.

Hora aparecem prontas, hora não, mas que na verdade são elas que me  possuem.

Aparecem na dor, na alegria, debaixo do chuveiro, ou simplesmente antes de botar os pés no chão. Como se eu mesma me espreitasse, sem descanso.

Minha poesia é na verdade todos os momentos da vida que me 
ultrapassam.

Gosto de dizer que ela é tudo aquilo que já não consigo nomear.                      


Charlene Rejani





quarta-feira, 20 de maio de 2015

Sem Rapariga mas com Wayden





Visitei o Museu do Prado recentemente. Como eu não sabia as obras que ele abrigava, decidi procurar na internet. Fiquei maravilhada ao ver que lá eu encontraria o quadro de Vermeer, “ Moça com Brinco de Pérola”.

Eu havia assistido o filme encenado por Scarlett Johansson e apaixonada por pérolas e pelo quadro, entrei em êxtase ao saber que logo estaria diante daquele rosto insinuante e ingênuo ao mesmo tempo.
Mas as filas estavam enormes. Uma tarde, a hora da siesta do espanhol, vi que não havia filas. Desci as escadarias correndo, entrei no Museu e me pus á procurar a tal da moça.

“A Rapariga encontra-se  em Haia”, falou-me o espanhol. Acho que a senhora terá que viajar mais um pouquinho”. A informação estava desatualizada na internet.

Decepcionada por alguns instantes e como sempre ando um pouco sem rumo dentro dos museus, para que as obras possam justamente me surpreender, pus – me á percorrer o Prado.

De repente, já muito cansada, tive a impressão de ver uma pintura em 3D. Pensei: nossa, deve ser meu cansaço. Mas meio que hipnotizada fui chegando perto daquele Jesus que parecia saltar da tela.

A sala toda saltava da tela. O Jesus, as mulheres com seus vestidos vermelhos que arrastavam pelo chão do Prado, a grama que saltava do chão e entrava nos vãos dos dedos dos descalçados, os rostos clamando por súplica cujas lágrimas pareciam escorregar.

Deus, eu estava diante de Rogier van der Wayden. O Prado não me decepcionou. Encontrava-me no meio de toda aquela gente do início do século XV. A sala encontrava-se repleta daqueles rostos iluminados, as roupas perfeitamente franzidas e costuradas, cada detalhe do seu bordado, os cabelos saindo das toucas das mulheres e avolumando-se sobre os ombros. O contorno das cutículas das mãos e dos pés que pareciam poder serem tocadas naquele momento.

Fui andando de ré, afastando o olhar até a lucidez separar a fantasia da realidade. Até conseguir enxergar um panorama que francamente eu ainda não havia presenciado.
São essas as surpresas que ás vezes a ignorância nos reserva.

Vou convidar você a linkar aqui: https://www.museodelprado.es/
Nenhuma visita on line supera momentos como esse.
Mas olhe com os seus olhos, com a sua impressão.
Aproveite e dê uma passada na sala do Rafael e do Goya na sua fase negra. Você com certeza vai se surpreender.
Profitez Bien!

Sobre Rogier Van der Weyden
Nasceu em Tournai, Bélgica, 1399/14000.
Foi um dos pintores góticos mais influentes do século xv e da pintura flamenca.
Ficou conhecido pelo naturalismo do detalhe de sua pintura e da expressão dos rostos.
Tornou-se pintor oficial do Duque de Borgonha.
Morreu em Bruxelas no ano de 1464.

Dicas:


Se por acaso você visitar a cidade de Madrid até 28/06/2015 terá a oportunidade de ver com seus próprios olhos. As filas estão intermináveis. Compre seu ingresso pela internet e escolha o horário da siesta para visitar o Prado, hora que o Museu, normalmente, está mais vazio.