“ Um fotógrafo é literalmente um homem que escreve com a
luz. Um homem que escreve e reescreve o mundo com luzes e sombras.”
Essa é a frase de abertura do filme O Sal da Terra,
documentário sobre a vida do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.
Há mais ou menos 25 anos atrás eu comprei um livro de
fotografias pela foto que havia na capa. Eu não poderia imaginar que essa click,
como tantas outros, tornar-se-iam obras. Quem vê uma foto do Sebastião Salgado
não esquece jamais a sua marca.
Prova disso é que eu passeava em Lisboa e sem menos
esperar, avistei um imenso cartaz cujo elefante parecia atravessar o plástico.
Sinceramente minha intuição apitou: Sebastião Salgado está por perto. E de fato
estava.
A exposição Gênesis encontrava-se bem alí, na Galeria do
Torreão da Cordoaria Nacional.
Ao
sair estonteada, pensei: eu estou diante de um homem em comunhão com o planeta.
Eu mesma acabo de provar um pouquinho dessa comunhão.
E de fato havia provado. Eu visitara um prédio antigo cuja
algumas paredes foram pintadas de um vermelho fechado para abrigar as fotos em
preto e branco.
Como de costume eu precisava olhar cada uma delas bem de
perto e depois de longe para conseguir apreender e captar a sensação única de
estar diante do olhos vívidos e curiosos daquele gorila, do olhar melancólico
da foca ou ainda do homem que se misturava ás samambaias me fazendo franzir o
olhar várias vezes para poder distinguir o que era homem, o que era planta, o
que eram os seixos e o que eram os músculos.
O mesmo se passava com o amontoado de pinguins perdendo-se
nos limites das geleiras ou os homens empoeirados sobre a terra, a pata do
lagarto de Galápagos perfeitamente desenhada em losango como se estivesse
tatuando o chão.
Hora eu já não sabia mais se estava diante de uma dança do
preto e branco ou do prateado. Não sabia onde começavam os bichos e as
paisagens, céus e terras misturados, nuvens e montanhas, dunas de areia e mar.
Completude. Comunhão.
Só depois, ao assistir o filme, consegui entender que era
Sebastião Salgado brincando com suas luzes e sombras. Mais que isso, oferendo
aos visitantes os lugares mais recônditos desse planeta. Lugares que além do
inóspito, habita a vida. Que além da vida, habita a Gênesis.
Então eu comecei á compreender o que senti há dias atrás,
espreitando cada foto sua. “A força de um retrato é o que, naquela fração de
segundos, a gente entende um pouco da vida daquela pessoa. É a pessoa que dá a
foto. Quando você tira um retrato, você não faz a foto sozinho.” Essa foi exatamente
a intensidade dessa exposição.
Sebastião Salgado testemunhou e denunciou através de suas
lentes, inúmeros genocídios e massacres ao longo de sua vida como fotógrafo. Explicitamente
ele diz: Somos um animal muito feroz. Nós humanos somos um animal terrível.
Gênesis é como se fosse sua homenagem ao planeta, que
segundo ele, mais da metade continua como no início dos tempos. Intocado. Por
isso o nome.
Projeto que levou quase uma década, Sebastião Salgado
percorre novamente o mundo, agora numa visita mais otimista do globo, trazendo
até nós a natureza, os animais, os lugares e as pessoas como se estivéssemos
diante do início.
A foto da cauda reluzente da baleia que dança acima da
água, diga-se de passagem, estremecia levemente quando o fotógrafo acariciava
sua pele nos momentos em que ela chegava perto do barco. E o macaco, ah!
curioso ancestral, brincava de pôr e tirar o dedo da boca diante da sua lente,
reconhecendo sua imagem.
Após assistir o filme, tive a sensação que Sebastião
Salgado estaria fazendo seu próprio retorno. Esse é o cálice generosamente
trazido até nós por esse homem que decidiu olhar além do óbvio: a Gênesis da Gêneses.
Profitez Bien sua exposição.
Dica: O filme O Sal da Terra, direção de Win Wenders e
Juliano Ribeiro Salgado é imperdível. Não deixem de assistir.














