terça-feira, 28 de julho de 2015

A Kombi do Sr. Remo








Minha rua de infância tinha algo de errante. Divertida. Esperada e inesperada.
Eram pessoas que eu sabia que passariam por ali vez ou outra, então isso trazia o acalento da novidade na minha alma já inquieta e ávida, desde pequena.

Um desses eventos era quando o Sr. Remo, um padeiro português, descia nossa rua com sua perua Kombi branca, recheada, por dentro, de todos os tipos de pães. Era a nossa padaria ambulante.

Se eu fosse pintora, poderia retratar exatamente a cor amarela da tarde quente, á hora do sol das três mais ou menos, quando eu avistava a perua, que já era meio surrada e seu branco nem tão branco, fazer a curva da esquina da casa da tia Ermelinda.

Quando a tarde ficava amarela daquele jeito, eu podia apostar: o Sr. Remo estava prestes á chegar. Nenhum amarelo da tarde era melhor do que aquele.

Então o português, que  era meio baixo, saltava da sua Kombi numa destreza comparada á de um bailarino e vinha abrir a porta do céu para nós, crianças e mulheres.

Enquanto a mãe e as tias apanhavam o leite eu ia direto, sem rodeios, na rosca de massa fofinha, transbordando côco e aquele brilho inexplicável por cima.

Meu Deus, como era sagrada a hora do seu Remo passar.

Então eu entrava dentro daquela Kombi, paraíso errante e me perdia naquelas imensas bandejas de madeiras, com seu cheiro doce sem fim.

Esse foi o melhor cheiro doce que tenho registrado desde criança, assim como o prazer da saciedade. Essa mesma que experimentamos algumas vezes e que passamos a vida á procurá-la, como verdadeiros errantes.

É quando caímos naquele círculo infinito e ilusório de confundir saciedade com felicidade e aí escorregamos na esparrela do vício e ironicamente da insatisfação.

Mas isso eu aprendi há muito pouco tempo.

Aquela Kombi branca era de fato um motivo de alegria e ópio, tudo ao mesmo tempo, mais um aroma de doçura do meio da tarde para completar, que realizava meus desejos ingênuos e ensinara-me a saber a hora do dia através dos seus muitos amarelos.

Então eu descia do meu pequeno paraíso inabalável, já consolada com seu retorno da próxima semana.


E aquela Kombi rasgava, devagar e enroscando, o amarelo rua abaixo, até sumir barulhentamente dos meus olhos saciados.




2 comentários:

  1. Lembrança de criança tem um sabor muito especial. Consigo ver em suas palavras a imagem que descrevia. Parabéns!

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  2. Humm, torrada com geléia de goiaba na colônia de férias do SESC em Bertioga, passeios deliciosos com meus avós. Adorei o texto e voltei aos sabores da minha infância. Bolinho de chuva com chá matte da minha outra avó.
    Beijos açucarados, mas nem tanto...

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