sexta-feira, 18 de março de 2016

O Apanhador de Desperdícios

Manoel de Barros foi um poeta do século XX e faleceu recentemente em 2014.
A doçura e profundidade simples de sua poesia são inigualáveis.
Esses dias, diante de tantas idiotices nos noticiários, decidi recorrer ás "manoelices".
Boa leitura. Manoelem bastante! Bjs





Uso a palavra para compor 
meus silêncios



Não gosto das palavras 
fatigadas de informar
Dou mais respeito 
ás que vivem de barriga no chão tipo 
água pedra  sapo 

Entendo bem 
o sotaque das águas

Dou respeito ás coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes



Prezo insetos
 mais que aviões



Prezo a velocidade 
das tartarugas 
mais que a dos mísseis

Tenho em mim 
esse atraso de nascença

Eu fui aparelhado 
para gostar de passarinhos




Tenho abundância 
de ser feliz por isso

Meu quintal 
é maior do que o mundo




Sou um apanhador 
de desperdícios 




Amo os restos 
como as boas moscas



Queria que a minha voz
 tivesse um  formato de canto




Porque eu não sou da informática  
Eu sou da invencionåtica 





Só uso a palavra
 para compor meus silêncios

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