Manoel de Barros foi um poeta do século XX e faleceu recentemente em 2014.
A doçura e profundidade simples de sua poesia são inigualáveis.
Esses dias, diante de tantas idiotices nos noticiários, decidi recorrer ás "manoelices".
Boa leitura. Manoelem bastante! Bjs
Uso a palavra para compor
meus silêncios
Não gosto das palavras
fatigadas de informar
.
Dou mais respeito
ás que vivem de barriga no chão tipo
água pedra sapo
Entendo bem
o sotaque das águas
Dou respeito ás coisas desimportantes
e aos seres desimportantes
Prezo insetos
mais que aviões
Prezo a velocidade
das tartarugas
mais que a dos mísseis
Tenho em mim
esse atraso de nascença
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos
Tenho abundância
de ser feliz por isso
Meu quintal
é maior do que o mundo
Sou um apanhador
de desperdícios
Amo os restos
como as boas moscas
Queria que a minha voz
tivesse um formato de canto
Porque eu não sou da informática
Eu sou da invencionåtica
Só uso a palavra
para compor meus silêncios

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