domingo, 6 de setembro de 2015

Pichava mesmo!!!!





1983. Eu estava no auge da minha adolescência. Não era diferente de nenhum jovem dessa idade: sonhadora, rebelde em casa, a vida tinha que fazer algum sentido. 



Eu morava numa casa de esquina, tinha um muro muito grande e alto que pai já estava cansado de pintar e pintar de tanto que pichavam.



Pichar naquela época era pichar mesmo. Sem nenhum apelo artístico ou de grafite como vemos hoje. 



Eu assistia àquele muro lindo sendo rabiscado e também me incomodava. Mas o que reverberava em mim era uma pontinha de inveja daqueles que cometiam esse ato de transgressão.



Eu já escrevia minhas poesias naquele tempo, então, aquela luzinha que brilha no fundo dos olhos quando achamos que temos idéias geniais, brilharam nos meus.



EU ia pichar TODO aquele muro com as minhas poesias. Mas também amava Maiakovski, não podia deixá-lo de fora. Jamais.




Começou minha elucubração.


Eu era baixinha. O muro muito alto. Não queria pedir ajuda de ninguém. Os irmãos eram medrosos, com certeza mais me atrapalhariam. 



Havia muitos amigos, mas aí a coisa podia sair fora do controle.



Quanto aos pais, graças á Deus eram modernos. Mãe ia adorar e pai também já que ficaria livre do trabalho de pintar toda vez a rabisqueira sem sentido.



Eu queria muito aquela atmosfera do proibido.



Então numa noite, hora bem avançada, que a casa e a rua dormiam, lá fui eu.



Duas latas de spray pretas e um banquinho. Lógico, eu não podia perder um pedacinho se quer daquele muro.



Subi no meu apoio, uma lata no chão, outra na mão e as poesias de cor, na cabeça.



Meu Deus, conforme eu chacoalhava a lata, aquela bolinha fazia um barulho que cortava a noite, parecia atravessar a esquina e acordar todos os vizinhos. Lógico que era a apenas o meu nervosismo.



Mas aquele tssssssss!!!! que barulho bom. Inesquecível.



Perfeccionista eu descia e subia daquele banquinho par ver se as letras não estavam ficando tortas. Eu escrevia á mão, em letra corrida. Era difícil.



De repente eu ouvi um barulho de fusca se aproximando. Desci rápido do banquinho, recolhi as latas, entrei correndo pelo portão, sem batê-lo e espiei: Era o guardinha da ACIC que fazia a ronda noturna. 



Sim. O muro era mais meu do que nunca, mas até explicar...



E assim foram algumas horas: e sobe do banquinho e desce do dito cujo e chacoalha a lata e desce para ver se não está torto e entra correndo por causa do guardinha e começa tudo de novo.



Pronto. Como estava lindo o meu muro! Parecia um imenso jornal que dobrava a esquina. O que ele dobrava, de fato, era o meu coração. Aliás todas as esquinas, até hoje, me dobram.



Minhas palavras mais as de Maiakovsk cortaram a noite num som inesquecível, no movimento arredondado e harmônico de cada letra, de cada palavra, de cada verso que se materializava ali e ganhavam, enfim, a vida.

Literalmente era eu quem me curvava ás palavras naquele momento. Me curvo até hoje.


Queria muito ver a cara da mãe e do pai no dia seguinte. Amaram. Mãe amava tudo que era meio do avesso. 



Eu morava perto do colégio Anglo naquela época. Foi uma ferveção quando contei. Meus amigos e alguns professores correram lá para ver. Que delícia era exibir minha façanha.



Uns dois anos depois, quando comecei á dirigir, era bom avistar de longe meu porto seguro.Minha casa de fato, batizada por mim. Aquelas letras legíveis, pegando quase meio quarteirão era meu livro vivo e aberto. As letrinhas andavam conforme eu ia virando a esquina.




O tempo foi passando e talvez vocês achem estranho, mas o autor cansa de ler sempre os mesmo versos uma vez que novos versos vão nascendo e ocupam nossa atenção.



Não me lembro ao certo quanto tempo meu muro ficara lá, escrito. 

Mas foi tempo suficiente para alimentar minha alma.



Se não me falha a memória, pois estamos falando muitos anos atrás, foram esses alguns dos poemas deliciosamente pichados: 




Minha Loucura

É minha lucidez
Meu corpo,
Tudo o que não falo


Das partes,

Não há parte
que seja ciência


E quando elas se chocam,

Se é que se chocam,
Não há sonho
Que não exista.


Char 1982






Teu olho 

É um rio,
Fio d água


Não cabe no mundo

É sem trégua 
E sem margem.


Char 1982





...Do veludo

Da minha voz
Vou mandar fazer
Minhas calças pretas


De três metros 

De Meio dia
Minha blusa amarela... 


Maiakovski 










2 comentários:

  1. Que ideia genial. Contar sua história com poesia. O mais interessante: chama a atenção e o faz querer chegar logo ao final, para descobrir o que aconteceu. Bom caminho para um livro de histórias, através da poesia, pois atrai a atenção do leitor.

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  2. Amiga Querida… não sei se amei mais a poesia ou seu desenho!!! Amei os dois…
    Fico feliz de te ver com esse gás, essa produção toda! Obrigada por ser generosa e compartilhar conosco sua preciosa intimidade! Essa coragem é para poucas pessoas… beijos enorme!

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