terça-feira, 26 de maio de 2015

Algumas considerações

                      




                                    

                                  Algumas Considerações,



De pequena, alguns chamavam- me poeta, poetisa.

Mas sinceramente não tenho registro ou lembrança da minha primeira  poesia ou algo assim.

No entanto, lembro- me perfeitamente da minha leitora mais fiel.

Lembro- me que chamava minha mãe para ouvir meus poemas.

Estivesse fazendo seja lá o que fosse, ela me acompanhava até a 
cozinha, seu lugar sempre preferido na casa, puxava a cadeira, 
ajeitava a anágua e esperava, esperava como quem espera um presente.

Seus olhos, eternamente azuis e atenciosos, descansavam sobre 
as minhas palavras.

Seu olhar escorregava para muito longe e então, naquele momento eu  compreendia que a poesia não era mais do autor, mas sim de quem a escutava.

Passei anos sem escrever e sem plateia. Quando o furor da meninice e da juventude amadureceu, a poesia acanhou-se.

Os anos passaram-se sem que eu compreendesse de fato o motivo dessa quietude.

Pensava que talvez ela não tivesse suportado a sem gracice da vida 
adulta.

Nunca mais incomodei- me com isso até o dia que minha mãe, 
serenamente, chamou- me para um pedido.

Dessa vez, acomodou- se no sofá da sala, fitou- me nos olhos e 
encomendou- me seu funeral.

Se a vida adulta brindou- me com sua sem gracice, presenteou-me também com o dom do acolhimento.

Lisonjeada, escutei seu pedido. Surpresa, já sabia que teria prazer em atendê-lo.

Mas os dias passaram- se e como o pedido trazia duas exigências com cores, senti- me confundida por alguns instantes.

Pedi que minha mãe o refizesse e como as mães também tem  o 
dom de repetir as coisas, ela assim o fez, sem se incomodar.

Mas o lapso de memória me rondava.

Para garantia então, uma noite, já deitada e tomada por
inquietação  tão caseira, decidi antecipar- me á peça que estava eu mesma por me  pregar .

Ao tentar anotar na agenda as cores que zombavam de mim na tentativa de inverterem-se, fluiu o poema " Não Pode Flor Amarela".

 Autorizei-me poeta á partir desse poema.

Agora, era eu quem acolhia a poesia de minha mãe, que desenhava-se no seu último pedido.

As flores interditadas de minha mãe, floresceram então na minh’alma.

Como de costume, convoquei novamente minha leitora e a presenteei com o poema, sem sabermos, um ano e dois meses antes da sua morte.

Esse é o registro que tenho como sendo o último poema lido á minha mãe e o primeiro da poeta.

Não sou, contudo,  poeta que desfila de sandálias ou caminha despojada pelas ruas.

Sou poeta que gosta da vida, do belo, do exuberante, do difícil também.

Sou na verdade a serviçal dessas metáforas que aparecem e me põe  para andar. Que me cutucam, feito a ave que quando  fura o ovo é porque quer  nascer de verdade.

Hora aparecem prontas, hora não, mas que na verdade são elas que me  possuem.

Aparecem na dor, na alegria, debaixo do chuveiro, ou simplesmente antes de botar os pés no chão. Como se eu mesma me espreitasse, sem descanso.

Minha poesia é na verdade todos os momentos da vida que me 
ultrapassam.

Gosto de dizer que ela é tudo aquilo que já não consigo nomear.                      


Charlene Rejani





3 comentários:

  1. Que lindo Charlene, adorei! Parabéns! Bjs, Fernanda

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  2. Incrível Charlene. De uma sensibilidade impar. Parabéns. Heider.

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  3. Muita sensibilidade e competência para escrever. bjs

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